Leonardo Garet

Naceu em Salto, Uruguai, em 1949. Dedicasse com similar intensidade a tres gêneros literarios

Reconhecido –por seu livro Obra de Horacio Quiroga (Premio único do Ministerio de Cultura, R.O.U. 1978), dedicosse âo estudo crítico e publicou obras acerca de Cervantes (1976), Enrique Amorim (1990), a historia da literatura de Salto (1990), Vicente Aleixandre (1991), la novela picaresca (1991) e Vicente Huidobro (1994). Acerca de Horacio Quiroga conta com tres livrose e ediçaos com prólogo e notas.

Na última década deu a conhecer livros de narrativa Os homes do fogo (1993), A casa do juglar (1996), Os dias de Rogelio (1998), As folhas de par em par (1998) y Anabákoros (1999), reconhecidos y prêmiados no seu pais.

E a poesia ô género que ô atraio especialmente. Iniciose com Pentalogía (1972), Primeiro cénario (Venezuela, 1975), Máquina final (1978), Pássaros extranjeiros (1988), Palavra encima de palavra (1991), Outubro, (1994), Cantos e desencantos (Mençâo do Concurso Anual del Ministerio de Educación y Cultura, -R.O.U.- 2000. Em 2001 ganhou o Primeiro premio de Poesía (compartido) em o Concurso anual do Ministerio de Educaçâo e Cultura de Uruguai, por seu livro Saída de página.

Esta publicaçâo, do Grupo Literario de Artigas e da Unión de Fronteiras Livramento-Rivera, Artigas-Quaraí, com o aporte de la Profª Nadja Boelter, que fez a traduçâo, e uma celebraçâo da trajectória de Leonardo Garet. Autor de innúmeras apresentaçâos de jôvenes autores de seu país e integrado a toda nossa fronteira por amigos e atividades de difuçâo cultural.

 

 

O Adivinho

 

O adivinho subia a escada. Sempre o vejo com o pé na escada, no degrau mais alto da escada que nos une à porta do sol ou a do Palácio Legislativo de Montevidéu. Degraus são como cidades, como ladrilhos com um rio dentro, como o zumbido de uma vespa enredada em um pentagrama. Nunca escuto as profecias. Desperto com o modo de seu anúncio ou conteúdo.

 

O adivinho subia a escada. Esta vez tudo foi diferente. Na metade, voltou-se e me olhou. Queimavam os campos de girassóis, junto ao caminho que me trouxe até a escadaria. Estávamos sós, rodeados de edifícios que caíam como bonecos de cartão. De repente, soube que a minha cidade era uma escenografia. As luzes de mercúrio pareciam abelhinhas sobrevoando as ruínas, depois caíram também. Então o adivinho saiu do sonho.

Lembro que um momento antes de acordar, sentados na alfombra da escadaria, percorremos as cidades amuradas, as de barro, cavernas e batalhas de diferentes séculos, uma a continuação da outra, no mesmo campo. Saiu do sonho, cumprimentamo-nos, compartilhamos um café.

Mil novecentos e oitenta não lhe dizia nada; era como se nosso ano e nosso século não existissem. Soube que suas visões recorriam à eternidade e que perguntar-lno algo de hoje, significaria, para nós, definir a situação determinada ja há dez anos. Falava mais ou menos assim: "As guerras são fogonaços." (foi o que disse, quando lhe perguntei sobre efeitos da terceira guerra mundial) tudo com evasivas e generalidades. Deduzi que os sucessos se lhe apresentavam como um radiante mural de cores - o lingüista diria: vê a diacronia como sincronia.

 

"Mas nada sei da morte, também you morrer e não sei se tudo se termina... Uma noite descobri que te agitavas, enquanto dormias. Vim para que soubesses que aquela imagem era a minha... Só as profecias incompletas podem se proclamar; há quem pode fazê-lo e é o profeta ou adivinho que o mundo reconhece. Para mim nada se termina e tudo é um só sucesso."

Levantamos da sala de jantar e saímos para o pátio. "Palpitavas de emoção ante as cidades, cavernas e batalhas que te mostrei. Isso porque se pareciam com teu passado; mas eram o futuro deste teu presente. Não viajaste. Desenvolvi a capacidade de projetar minhas visões, como única forma de transmitir algo do teu amanhã. As palavras morrem. Ninguém acredita nelas, e todos as trafegam... Vejo a cor destas árvores amanhã e a máquina que as derrubará daqui a alguns anos. Teu sorriso incrédulo dentro de alguns instantes e tua ancianidade de sabedoria. Escuto as palavras com que se iniciará uma nova língua. Tocando em tuas mãos, tocou em teus netos. Meu tempo é a história dos séculos..."

 

O adivinho respondía, à medida que me surgiam as perguntas. Aconselhou-ne que voltasse ao quarto, deitasse e fechasse os olhos. E distanciouse, subindo a escada.

 

* * *

 

 

As Flores de Amália

 

Extraviávamos o olhar pelas árvores, inimigas entre si. As vezes tinha de cortar uma árvore, para saber se vivia. Eram como de arame. Eu nunca vi flores como as de Dona Amália. Conversava com os adultos, mas estes falavam da água, do velho, do rio, dos documentos, nas casas. As flores apareciam num discurso, quando se prometia o amanhã.

 

Amália, viúva há muitos anos, era como se tivesse a peste da solidão. Não saía de casa, senão nas noites de primavera, e escondida. Alguém a via, sempre de longe. Não falava com ninguém. Amália nas asas de seu chale negro, em um cone de sombra na enredadeira da varanda do rancho, em tempo espichado desde a meia manhã, quando tomava o mate de leite, até a lua por sob as árvores. E sempre fazendo as flores, vermelhas, alongadas como luas mentirosas.

 

Todas as árvores do Talado tinham dessas flores. E corria fama que as flores de corticeira, de Dona Amália duravam tanto quanto as verdadeiras. A cada dia, a partir de 21 de setembro, aparecia uma árvore coberta de flores que Amália orendia com alfinetes. Eram as flores de todo o verão, o outono e o inverno, embaixo da ramada. O sol castigava o papel e morriam as flores, sem caírem, enferrujando o alfinete e os talos. Aquilo nos dava a sensação de coisa perfeita, que corrigia ao sol, tendo que iluminar e crescer devagar, pois cada manhã, para surpresa nossa, surgia uma árvore nova,toda vestida de vermelho. Algumas, em pleno verão; outras, em pleno inverno. As árvores viraram animais eriçados de medo, com espinhos grandes como ramos.

 

-A senhora acredita no Velho?

-Eu sou jovem -repreendeu a anciã- de pequenas primaveras. Quando me ensinaram a flor de corticeira molhada, eu tinha as pernas e o peito como um ramo. Assim que o Velho já era um recanto muito escondido em todas memórias.

- A senhora aceita que eu a ajude com as flores? - disse prontamente a menina Severo

- Tenho que fazer flores ou tocar piano.

-Filha, o piano te espera. As flores é algo que nasce de ti e não podes fazer outra coisa. É trabalho largo e sofrimento chegar até as flores.

-Dona Amália, eu quero as flores.

-Filha, as flores são mais iguais umas com as outras, do que as notas...

- Sim. Mas delas se pode fazer luares e uma face mais vermelha que a outra.

A menor dos Severo foi ao rancho de Amália. Revi-a embaixo da ramada. Era uma sombra pequena, ao lado da grande.

 

Que as árvores se alimentem de árvores, pode ser um caminho. Mas, contam que chegaram a comer o coração e o cérebro dos animais, para crescer. A maldição está com elas. Crescer não é reaver o coração. E, também não é dar algumas moedas. Com as coisas aconteceria o mesmo. Crescer é formar uma pedra, sem começar com restos de pedra.

Da escola observevamos o rancho de Dona Amália. Ela era pa a nós tudo o que a professora dizia que o ar, o sol e a terra faziam. A professora era e parecia velha. E nós a festejávamos, faziámos todos os mapas e as ilustrações com as cores devidas, ainda a anotação cuidadosa da história do santo diário. Enchíamos o caderno e ela bordava de “parabéns a você”.

Dom Geraldo pôs fogo no seu rancho. Tinha-no construído com tabuas de remates, janelas e restos de demolições. Quando o terminou, deu-se conta que o rancho ficara mais velho do que ele.. Entaão, ateou-lhe fogo. Passou pela escola com cara de felicidade. Por isso eu desenhei uma roda de meninos acima do rancho todo vermelh d enamas. Uma roda de rostos separados do corpo; só de rostos felizes, como o de Geraldo, depois do incêndio. A professora me deixou mal e ensinou que um incêndio é uma tragédia. - Mas por quê? - Porque se perdem todas as coisas - disse-me com as palmas das mãos e os olhos voltados para o alto.

Eu perdi a confiança da professora porque falava de ter de comprar, de ricos ou de pobres. Olhava-me de soslaio e separava as sílabas: por-que - é - ne-ces-sá-rio - ser-mos - bons - com - os - po-bres, - a-ju-dá - -los - pa-ra - que - não - o dei-xem - de - as-sim - ser.

Um dia, a professora veio com a invenção do assobio. Não sei que relação tem a música em tudo isso. Mas, um dia a rádio tocou só marchas. No outro dia, foi um silêncio de ninguém ir ao trabalho ou sair à rua.

Depois de alguns dias de feriado, retornamos à escola. A professora ensinou: com um silvo chamava os meninos; dois silvos, as meninas e três, aos empregados. Esse dia nos sentenciaram a todos porque nos agredíamos com os apitos. A professora usava o apito dependurado no pescoço e a mão desviava muito perto para chegar a tempo ao seu comando. O que antes fazíamos caminhando, agora tínhamos de o fazer correndo.

Mais nos enganávamos, mas recebíamos aprovação quando acertávamos. Meu caminho para a escola mudou. Não se podia mais passar em frente à casa de Dona Amália porque era mau exemplo. Igualmente, na primavera, chegaram suas feridas vermelhas, poucas, pois passara dois meses presa para investigações.

A menor dos Severo foi com ela, mas não voltou nem se soube mais dela.

No lugar onde esperávamos o rio, as autoridades ergueram um imenso monumento ao Velho...Em nada se parecia com o velho -conforme contavam- havia anunciado a nossos avós o nascimento de um rio. Cada vez que olhávamos o monumento, vínha-nos a idéia de que o rio não podia vir com tanta pedra em cima. Não tivemos rio, e sim monumento. As autoridades demonstraram que o rio não era necessário. Instalaram o cano, isto é um metro de diâmetro, desde o rio mais próximo; a cem quilômetros, todo de cimento. A inauguração do cano atraiu tanta gente que nós, os taladenses, não nod encontrávamos. À tarde desceu um avião e veio o presidente. Desde a manhã, a escola estava a postos perto do cano. O padre Noriega benzeu-o. Aplaudimos a todo o momento que a professora aplaudia. Ela suspeitava de mim e olhava de soslaio. Deve ter ficado contente porque eu tinha frio e aplaudi com todo o corpo. No outro dia, meu pai soube que devia começar a pagar o cano.

 

 

 

Quando o povoado amanheceu com música, para festejar o primeiro mês do cano; descobriu-se que perto do final havia quebrado e a água começava a nos inundar. Enchia os poços. Até que um dia cortaram a água, para consertá-lo nos diversos vazamentos. Não tivemos mais água, mas minha mãe seguiu pagando o cano.

Naqueles dias, o rancho de Dona Amália virou ilha. Tinha que saltar como três metros. Mas ela não saiu. Continuou embaixo da ramada. Quando a água foi embora e estiou a terra, Geraldo foi surpreendido insultando o monumento e o cano. Levaram-no sem rosto de felicidade. E nunca mais o vimos.

 

As autoridades proibiram passar-se em frente ao rancho de Amália. De inconveniente passou a ser proibido. Desocuparam as casas vizihnas. Ninguém queria ser suspeito. Então, alguns de nós, antes companheiros de escola, resolvemos falar com ela. Fomos uns poucos. Sussurrávamos, como se ela fosse um ídolo distante. Nós que nada conhecíamos, pedíamos o caminho a ela. Esta va baixinha e curvada. A ramada parecia ocar-se, para deixar-lhe mover os braços. Tínhamos certeza de que não nos escutava. Mas, no dia seguinte, em pleno inverno apareceram suas flores de corticeira, cobrindo completamente uma árvore. E a ela não agarraram, eh? Ela sim, se foi para sempre. Mostrou-nos, porém, que até as estações se pode trocar.

 

 

 

CONTOS TRADUZIDOS: O Adivinho

As Flores de Amália

 

TRADUTORA: Profª Nadja Maria Boelter da Rosa

DATA: setembro de 1992

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BIBLIOGRAFIA

 

GARET, Leonardo Los Hombres del Agua, Destabanda Proalsur, Montevideo, 1988,

Diccionario Portugues-Espanol y Espanol-Portugues, Editorial Ramón Sopena España, Barcelona. Gráficas Ramón Sopena, S.A. 1986.

Novo Dicionário da Língua Portugusa, de Ferrerira, Aurélio Buarque de Holanda, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira. 1986.

 

 

 


 

 

 

LEONARDO GARET

 

 

SAÍDA DE PAGINA

SALIDA DE PÁGINA

Bilingüe

Portugués-español

 

 

Traduçâo: Nadja Boelter

 

 

 

Se for necesario, abaixarse um pouco, empurrar o título para cima. Debe-se poder estar na galería feita de poemas de diferente altura com a naturalidade de encontrarsse com o autor e leerme juntos.

 

 

 

1

 

 

 

Serán ladridos

o convocatorias

me levanto paso a paso

con mi memoria de la casa en los pies tanteando

para no caer

en dientes o alabanzas

 

La noche es plena

siempre es demasiado lo que falta

 

Hay luces de otros días

que iluminan

en el hoy los espejos

nos confunden

 

Y hay un filo

que quiere cortarme por la mitad

y dejarme de este lado

abandonado y seco

el cuerpo.

 

 

 

 

1

 

 

 

Serâo latidos

ou convocaçôes

me levanto passo a passo

com a memória de casa tateando os pés

para nâo cair

em dentes ou elogios

 

A noite é plena

sempre é demais aquilo que falta

 

Existem luzes de outros dias

que iluminan

no hoje os espelhos

nos confundem

 

Existe um fio

querendo me cortar pela metade

é deixarme deste lado

o corpo

abandonado e seco.

 

 

 

2

 

 

Ni venado ni tigre ni foto de monte

 

me dan el paisaje salvaje

de tus ojos

Vaya divagación

si ni un gnomo

te nombra

 

Estás perdida

 

Fuera de montaña y de lago

estás sucia de calle

y de horas extrañas

 

Te queda buscar

el refugio feroz de mis brazos

con espinas

 

Por los puertos del mundo

nacen vegetaciones de hierro

 

Te queda la piedad de las cosas

domésticas

 

y avivar el fuego que consume a mi cuerpo.

 

 

2

 

 

Nem veado nem tigre nem foto de mato

 

me dâo a paisagem selvajem

de teus olhos

Va divagaçâo

se nem um gnomo

te nomeia

 

Estás perdida

 

Fora de montanha e de lago

estás suja de rua

de horas estranhas

 

Te resta buscar

el refúgio feroz dos meus braços

com espinhas

 

Pelos portos do mundo

nascem vegetaçôes de ferro

 

Te resta a piedade das coisas

domésticas

 

e animar o fogo que consome o meu corpo.

 

 

 

3

 

No es que muera cuando veo funerales

 

la muerte pasa y se levanta

vertical

mi vida

pero ningún quehacer me saca

de ese cortejo

 

voy pateando por la calle una pelota

cuando no sabía

que me seguían funerales

 

y tengo cuatro años

y también cincuenta

y un día

que no puedo pensar.

 

 

3

 

 

Nâo que morra quando vejo funerais

 

a morte passa e se levanta

vertical

minha vida

mas nenhuma tarefa me tira

desse cortejo

 

vou chutando uma bola pela rua

no momento nâo sabia

que funerais me seguiam

 

e tenho quatro anos

e tambén cinqüenta

e un dia

que nâo posso pensar.

 

 

* * *

 

 

Grupo Literario de Artiga, Unión de fronteras Livramento-Rivera, Artigas- Quaraí

 
GT Thomaz

2001

 

Publicaçâo Grupo Literario de Artigas

Unión de Fronteras Livramento-Rivera

Artigas- Quaraí.

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Nadja Boelter (Quaraí, Brasil), profesora en colegios de su ciudad natal y en la Universidad de Santa Catalina. Autora de A hora do anjo (2000).